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quinta-feira, 25 de abril de 2013

Cais do Valongo

Cais do Valongo

Lado esquerdo: Cais do Valongo, onde apresenta o calçamento em pedras irregulares, Pé de Moleque. A direita: O calçamento regular, o Cais da Imperatriz


Aventuras na História

Saiba tudo sobre o Cais do Valongo - o local por onde entravam os africanos escravos no Brasil no século XIX

Porta de entrada para meio milhão de africanos, a região do Valongo ganha circuito turístico e cultural no Rio de Janeiro, com destaque para ruínas descobertas de ancoradouro

Por Flávia Ribeiro, do Rio de Janeiro / Ilustrações Alexandre Camanho | 18/01/2013 14h59
O Cais do Valongo, porta de entrada no Brasil para cerca de meio milhão de africanos entre 1811 e 1831, é o carro-chefe de um roteiro turístico e cultural que pretende recuperar um pedaço importante da história da presença negra no país. Redescoberto há pouco mais de um ano durante obras de revitalização da região portuária do Rio de Janeiro, após ficar 168 anos soterrado, o ancoradouro traz com ele memórias da escravidão no país e faz parte do Circuito Histórico e Arqueológico da Herança Africana. Inaugurado em novembro de 2011 pela Prefeitura do Rio, o roteiro inclui, além do cais, o Largo do Depósito, o Jardim Suspenso do Valongo, a Pedra do Sal, o Cemitério dos Pretos Novos e o Centro Cultural José Bonifácio.
É o resgate de uma história que havia sido literalmente enterrada durante o "processo civilizatório" da então capital do Brasil: em 1843, foi feito um aterro de 60 centímetros de espessura precisamente sobre o Cais do Valongo, para a construção de um novo ancoradouro para receber a imperatriz Teresa Cristina, que se casaria com dom Pedro II.
"O Cais do Valongo é um lugar simbólico, porque ali está o passado da população afrodescendente do país", explica Tânia Andrade Lima, arqueóloga do Museu Nacional que supervisiona as obras no porto. "Ele não foi encontrado por acaso. Desde 2010, sabíamos da existência de um sítio arqueológico naquele lugar". Havia um totem no local informando que ali existira o Cais da Imperatriz, também enterrado no início do século 20, dessa vez para a reforma de toda a região central do Rio. Em nenhuma referência ao Valongo, que recebeu o maior número de africanos na Américas. Durante as escavações, foram descobertos os dois ancoradouros, um sobre o outro. Junto a eles, uma grande quantidade de objetos de uso pessoal, especialmente amuletos e objetos de culto vindos do Congo, Angola e Moçambique.
"Aquela região, mais do que o cais, era um complexo de escravos, que incluía o lazareto, para onde os negros que chegavam doentes iam se curar ou morrer, o Cemitério dos Pretos Novos e os armazéns de engorda e venda dos escravos, que se concentravam na Rua do Valongo, atual Rua Camerino", diz Tânia. A área ia desde a atual Rua Barão de Tefé até a Cidade do Samba, englobando os bairros da Gamboa, da Saúde e do Santo Cristo.
Até meados da década de 1770, os escravos desembarcavam na Praia do Peixe, atual Praça 15, e eram negociados na Rua Direita, hoje Rua 1º de Março. Bem no Centro do Rio, à vista de moradores e dos estrangeiros que chegavam para conhecer a colônia. Uma nova legislação, de 1774, estabelecia a transferência desse mercado para a região do Valongo. Os motivos apresentados eram sanitários: proteger os cidadãos das doenças trazidas pelos negros. Mas já havia, permeando a decisão, a sensibilidade de que manter aquele comércio no coração do Rio maculava sua imagem de cidade europeia.
A mudança partiu do segundo Marquês de Lavradio, dom Luís de Almeida Portugal Soares de Alarcão d'Eça e Melo Silva Mascarenhas, vice-rei do Brasil, alarmado com "o terrível costume de tão logo os pretos desembarcarem no porto vindos da costa africana, entrarem na cidade através das principais vias públicas, não apenas carregados de inúmeras doenças, mas nus". Mas ainda não havia o ancoradouro, e a alternativa encontrada foi desembarcar os escravos na alfândega e imediatamente enviá-los de bote ao Valongo, de onde saltariam diretamente na praia.
Em 1779 o comércio de africanos se estabeleceu finalmente na região do Valongo. Cresceu a cada ano, e viveu seu auge de 1808, com chegada da família real, a 1831, ano em que o comércio de escravos da África para o Brasil passou a ser feito às escondidas. Só em 1811 o cais foi construído, para que o desembarque fosse direto no local. "A partir de 1808 o tráfico quase dobra, acompanhando a cidade que, com a vinda da corte, passa de 15 mil para 30 mil habitantes. De 1811 a 1831, metade da economia do país, metade do PIB, é movida a escravos" diz o historiador Carlos Líbano, da Universidade Federal da Bahia (UFBA.
É nesse período de apenas 20 anos que 500 mil africanos - dos 4 milhões que aqui chegaram até 1850 - entram no Brasil pelo novo ancoradouro. A distância do Centro não impediu, como gostariam as autoridades, que olhares estrangeiros continuassem a descrever o funcionamento do mercado de escravos do Rio. A viajante inglesa Maria Graham, por exemplo, que esteve no Brasil entre 1821 e 1823, escreveu em seu Diário de uma Viagem ao Brasil que, no Valongo, "todo o tráfico de escravos surge com todos os seus horrores perante nossos olhos". Cada "peça" tinha um preço. Um africano novo e saudável, em 1811, podia chegar a algo em torno de cem mil réis, mas podia alcançar 200 mil se tivesse alguma habilidade especial, como a carpintaria. Como comparação, uma casa pequena no Rio de Janeiro custava cerca de um conto de réis, o que daria para comprar dez escravos normais ou cinco habilidosos.
No fim dos anos 20 do século 19, o tráfico de escravos para o Brasil vivia seu apogeu, e o Valongo era a principal porta de entrada principalmente para os negros vindos de Angola, da África Oriental e da Centro-Ocidental - nos entrepostos do Maranhão e da Bahia, ainda chegavam navios vindos respectivamente da Guiné e da África Ocidental. Mas a maioria tinha necessariamente que ao menos passar pelo Valongo, para que os traficantes pagassem seus impostos. "A renda da tributação do mercado negreiro era alta. Mas o Rio era um polo distribuidor de escravos, não concentrador", explica Carlos Líbano.
Esses escravos saíam da capital para as plantações de café, fumo e açúcar do interior e de outras regiões do país, especialmente no Vale do Paraíba e em São Paulo. "O escravo é o insumo básico dessa economia, o motor, o petróleo dela", diz Líbano. Os que ficavam geralmente eram os escravos domésticos, além dos usados como força de trabalho nas obras públicas. Muitos eram especialistas, como sapateiros, quitandeiras, cabeleireiros ou ourives, que gahavam do seu senhor o direito de exercer suas profissões na rua, tornando-se escravos de ganho. Parte do dinheiro ficava para o próprio escravo, que tinha sua vida, independente da do patrão: pagava aluguel e andava pelas ruas. Quem conseguia juntar dinheiro comprava a alforria.
Em 1831 o Valongo foi fechado, quando o tráfico transatlântico foi proibido por pressão da Inglaterra. A norma foi solenemente ignorada e recebeu a alcunha irônica de "lei para inglês ver". Os traficantes usavam portos clandestinos para trazer sua mercadoria. Em 1850, com a assinatura da Lei Eusébio de Queirós, pôs-se fim verdadeiramente ao tráfico para o Brasil, embora a escravidão persistisse até a Abolição, em 1888. "A última remessa de que se tem informação é de 1872" conta Líbano. A área do Valongo, entre 1850 e 1920, se transformou no que ficou conhecido como Pequena África: um espaço ocupado por negros libertos de diversas nações.
Na trilha da escravidão

Há outros pontos do Circuito Histórico e Arqueológico da Herança Africana. O Largo do Depósito, hoje Praça dos Estivadores, era onde se concentravam os armazéns nos quais os escravos ficavam antes de serem vendidos.

O Cemitério dos Pretos Novos funcionou de 1779 a 1831 e recebia os corpos dos escravos que já chegavam mortos ou morriam antes de serem comerciados. O local, também soterrado ao longo dos anos, foi redescoberto por acaso em 1996, quando os empresários Ana Maria de la Merced e Petrucio dos Anjos resolveram fazer uma reforma no quintal de sua casa, na Gamboa, Centro do Rio. Ossos, fragmentos de crânios e dentes, cerâmicas e contas começaram a sair dos buracos cavados pelos pedreiros. O local hoje é um pequeno museu.

Na Pedra do Sal, escravos que trabalhavam no cais descarregavam o sal trazido por navios. Depois da Abolição, se tornou ponto de festas e cultos dos negros. No início do século 20, Donga, Pixinguinha, João da Baiana, Heitor dos Prazeres e outros grandes sambistas se reuniam ali. O Jardim Suspenso do Valongo surgiu após a Abolição. A ideia era criar um jardim romântico de inspiração inglesa, que apagasse da região as marcas da escravidão. Por fim, há o Centro Cultural José Bonifácio, sede do Centro de Referência da Cultura Afro-Brasileira.


Saiba Mais
Livros:
O Cativeiro Imperfeito: um Estudo sobre a Escravidão no Rio de Janeiro da Primeira Metade do Século XIX, José Roberto Pinto Góes, Lineart, 1993.
A vida dos escravos no Rio de Janeiro (1808-1850), Mary Karasch, Companhia das Letras, 2000.
Nessa obra, a historiadora americana faz um estudo da escravidão urbana no Rio de Janeiro da primeira metade do século 19.





Canhões na mira

Obras da Zona Portuária do Rio revelam mais um canhão do século XVII e aumenta o mistério sobre o processo de militarização da região. Enquanto isso, outras três armas, encontradas há um mês, foram removidas sem receber o tratamento adequado


  • O quarto canhão encontrado sob a Rua Sacadura Cabral, Zona Portuária do Rio. Fotos: Divulgação/SMO
    O quarto canhão encontrado sob a Rua Sacadura Cabral, Zona Portuária do Rio. Fotos: Divulgação/SMO
    O mistério dos canhões do século XVII descobertos durante as obras da Zona Portuária do Rio de Janeiro aumentou com uma nova arma na última quinta-feira (dia 8) – a quarta em um mês. Mais intrigante é que o equipamento foi encontrado em um local diferente das demais, onde também não há registros da existência de fortificações. Os achados arqueológicos mobilizaram a comunidade acadêmica e as autoridades cariocas, mas não tanto quando se tratou de oferecer os cuidados necessários para manter o armamento intacto: após um mês da descoberta, as outras três peças passaram apenas por um “trabalho de limpeza” – ação que, no entanto, só deveria acontecer após um processo de estabilização para evitar danos.
    O novo canhão foi encontrado na Rua Sacadura Cabral, próximo ao Largo da Prainha – a 18 metros das demais armas localizadas na mesma via. Agora já são quatro equipamentos: as duas primeiras foram achadas em 13 de fevereiro, e a terceira, no dia 24. Os canhões, que têm cerca de 1,50 metro de comprimento e foram identificadas como sendo do século XVII, são os mais antigos já descobertos no Rio de Janeiro – e possivelmente, no Brasil.
    Análises preliminares revelaram que eles não se enquadram em nenhuma estrutura de fortificação da cidade. Uma das suspeitas é de que eles faziam parte de uma bateria de canhões ao longo da praia, no pé do Morro da Conceição – como parte de um sistema de defesa que funcionava ao longo da costa para combater invasões às terras cariocas. O curioso, porém, é que esse tipo de armamento costuma seguir o mesmo padrão dos demais fortes e canhões da cidade, o que não acontece neste caso.

    Risco de danos
    As peças estão sendo armazenadas no Parque Noronha Santos, no Centro, onde fica a sede da Gerência de Monumentos e Chafarizes da Prefeitura do Rio. Segundo a Secretaria Municipal de Conservação, “os objetos foram colocados sob madeiras, em local coberto e sem umidade”. O órgão ressalta que o trabalho de limpeza contou com a orientação de técnicos do Iphan.
    Porém, o historiador e pesquisador do Iphan, Adler Homero Fonseca – especialista em armamento militar e um dos responsáveis pelos pareceres do instituto – afirma que os equipamentos até hoje não passaram pelo procedimento padrão capaz de evitar danos a relíquias históricas desse tipo.
    “O pessoal mais adequado para receber o material seria a prefeitura mesmo, mas só depois dos canhões estarem estabilizados – processo que consiste em aquecer os canhões a mais de 800 graus por um período de uma semana, para que o cloreto de sódio (sal marinho) que contamina o objeto seja expelido. A prefeitura não tem condições de fazer esse trabalho de estabilização, só o Museu Naval poderia dar o tratamento necessário”.
    O Iphan até hoje não emitiu um parecer prévio – que demoraria, no máximo, dois dias – sobre os canhões, o que seria capaz de dirimir, por exemplo, dúvidas sobre a origem dos equipamentos. O setor de tombamento do Departamento de Patrimônio Material de Fiscalização do Iphan – responsável por emitir tal parecer e por indicar os tratamentos necessários –, que existia há 75 anos, foi extinto no mês passado.
    FONTE REVISTA DE HISTÓRIA



    Mais um canhão do século 17 é encontrado no Rio; é o terceiro somente este mês
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    Julio Reis
    Do UOL, no Rio
    • Secretaria Municipal de Obras do Rio/Divulgação
      Canhão do século 17 é encontrado durante escavações para obras no Rio
      Canhão do século 17 é encontrado durante escavações para obras no Rio
    Operários e arqueólogos que trabalham nas obras do Porto Maravilha, conjunto de intervenções que pretendem revitalizar a região portuária do Rio de Janeiro, encontraram durante escavações feitas na manhã desta terça-feira (28) mais um canhão antigo. Este já é o terceiro descoberto durante escavações, todos neste mês de fevereiro.

    As peças, muito semelhantes entre si, tem em média de 1,5 metro a 1,7 metro de comprimento e devem ter sido utilizadas em pequenos fortes (fortim) construídos na região por volta do século 17 e que foram deixados para trás.

    A Secretaria Municipal de Obras do Rio de Janeiro disse que as peças têm sido guardadas em um depósito da prefeitura e foram encontradas preservadas, embora precisem de pequenos restauros.
    Os canhões devem ser avaliados por técnicos da Subsecretaria de Patrimônio Cultural do Rio e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O Iphan disse, no entanto, que ainda não foi notificado oficialmente e que, portanto, não pode valorar a relevância das peças.
    fonte uol

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